Marcha da Maconha de Curitiba

Demarcação de território

Sem fotografar a “Marcha da Maconha” desde 2014, movimento sociocultural que considero mais que legítimo, pois luta pela não discriminação e regulamentação de um estado marginalizado, não pude imaginar o quanto este fenômeno havia crescido. Confesso que nunca havia visto tantos “maconheiros” juntos, o fenômeno “marcha” ganhou muitos adeptos dispostos a “botarem a cara”. Destaca-se que Curitiba é reduto político restritivo por excelência com pensamento conservador. Mesmo assim às 16:20 daquele 02 de junho de 2019, o centro da cidade testemunhou um fogaréu nas sedas, papéis e sedanapos, extravasando todo o medo e o preconceito que normalmente emana dos que se dizem “cidadãos de bem”. Éramos visivelmente os “cidadãos de mal”, de mal com toda essa bondade hipócrita com interesses financeiros escusos que transborda com vigor em nossa sociedade faz uns anos. Os cidadãos de mal e os atos de rebeldia tinham de ficar evidentes, pelo menos naquele 02 de junho, era preciso ganhar terreno no campo de batalha.

O que se pretendia mesmo que inconscientemente era uma “demarcação de território”, esse era o clima, era possível sentir nos arredores da Boca, que naquele domingo estava menos “Maldita”. Menos maldita porque muito pouco ou quase nada se falou de política, revelando por suposto uma carência representativa da classe de maconheiros em Curitiba, mas também a Boca Maldita* naquele domingo foi bendita, porque a erva tem o condão de unir aos seres humanos. Ainda que num gigantesco uso recreativo sem alguma argumentação coletiva coerente, todos sentiam e sabiam que com a planta não há treta. Até a polícia se manteve ausente, após uma ação isolada e meramente midiática logo no início, para que constasse ao menos um grupo de dez jovens abordados nos procedimentos de rotina. Eram milhares e milhares de maconheiros, não dava pra revistar todo mundo.

Quando intitulo o texto como “demarcação de território” faço uma clara analogia aos territórios indígenas e quilombolas, pois ali se reivindica o potencial de atividades produtivas indispensáveis para a preservação dos próprios recursos, sejam humanos ou ambientais. Em grande medida o uso regulamentado da cannabis funciona igual, sendo possibilidade necessária ao bem-estar de determinados indivíduos que buscam reproduzir física e culturalmente materialidades que lhes foram negadas a partir de usos, costumes e tradições vindos impositivamente desde fora. Num grande choque de culturas (interesses) todos são os prejudicados e a partir daí não existe cidadão de bem ou de mal, existe o ser humano. Geralmente ferido e acoado pelas convicções dos outros, pois a mesma certeza que condena o “traficante de pequena monta” sem arma e antecedentes, condena o “usuário de grande monta” com carro e advogado.

Neste momento da história o que deve permanecer da Marcha da Maconha 2019 é a união do ser humano, acima de todos os retrocessos legislativos, culturais, políticos, bem acima das sabotagens institucionais que por exemplo cancelaram um julgamento parado desde 2015 de vital importância para milhares de famílias, das internações compulsórias em centros evangelizantes, das medidas autoritárias que mais parecem de cinquenta anos atrás, etc. Independentemente do conhecimento dessas causas, o número de presentes na marcha aumentou (e muito) de cinco anos pra cá, o que significa que a demanda existe e está aparecendo com o passar dos dias. Vida longa ao dia mais verde do ano, que siga sendo celebrado mesmo como um grande encontro de fumetas, porque em breve veremos que nem só de polarização extrema vive uma sociedade. Quando entraremos então, num nível de consciência onde saberemos enxergar que o “cidadão de bem” é uma invenção da mente, uma grande viagem de algum careta amargurado que não era capaz de reconhecer aos seus iguais.

*Boca Maldita: Apelido da Rua Luiz Xavier no coração de Curitiba, local tradicional da manifestação.

Guilherme Bressan é fotógrafo, advogado e crítico, ministra cursos voltados à área de imagem e fotografia em Curitiba.

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